Cartografia Mítica da Escarpa Devoniana

Endereço virtual da pesquisa (www.cartografiamitica.wordpress.com)
2021
Impressão de QR code sobre papel sulfite 120g
80 x 80 cm

Mapas
Caminho do Peabiru
Para onde correm os rios depois de Crinjijimbé
Povos Originários no Paraná
2021
Nanquim sobre papel vegetal Gateway 85g, normógrafo aranha, fio de algodão
60 x 80 cm

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Texto de Vinícius Pontes Sprícigo, escrito por ocasião da exposição Cartografia Mítica da Escarpa Devoniana, no Museu da Fotografia, Curitiba, Paraná, 2021.

Vinicius Spricigo é professor adjunto do Departamento de História da Arte da UNIFESP. Foi Curador associado ao Fórum Permanente: Museus de Arte; entre o público e o privado (2006-2008) e à Associação Cultural Videobrasil (para a realização da exposição Geopoéticas do artista Isaac Julien no SESC Pompéia, 2012). Realizou pesquisa de pós-doutorado junto ao Research Centre for Transnational Art Identity and Nation da University of the Arts London (2019-2020); apresentou sua pesquisa em instituições como o Palais de Tokyo e o Centre Georges Pompidou em Paris, o Stedelijk Museum Amsterdam e a Bienal de Berlim; contribuiu, entre outros textos publicados, para os livros The Biennial Reader e German Art in São Paulo, ambos pela Hatje Cantz.

Nas últimas três décadas surgiu a consciência de uma nova época geológica, o antropoceno;  Era em que os humanos possuem em suas mãos o destino do planeta terra. Falar em antropoceno como uma nova época significa, no sentido acadêmico strictu, discutir se a manipulação humana do meio ambiente já deixou marcas registradas nos estratos geológicos, ou seja, nas rochas. No entanto, a proposta desenvolvida aqui extrapola esse sentido restrito, abarcando não somente o âmbito da ciência, mas também da sociedade e cultura em geral. Não à toa, muitos têm voltado as suas atenções para o trabalho do escritor e ambientalista Ailton Krenak e autores que ressaltam a epistemologia indígena como possível alternativa para se compreender a questão do antropoceno. Por isso, vamos observar as evidências do antropoceno pelo olhar da arte.

Ao longo do ano de 2020, a artista Maria Baptista visitou os municípios de Balsa Nova, Palmeira, Ponta Grossa e Tibagi, que compõem a Área de Preservação Ambiental da Escarpa Devoniana, na região dos Campos Gerais do Paraná. Após percorrer mais de 2.000 km, passando por cidades, lugares históricos e pré-históricos e reservas naturais, ela cartografou, num trabalho em processo, esses espaços simbólicos. No mesmo período, a artista realizou também o plantio de 100 mudas de árvores nativas, como uma intervenção de arte ambiental na região de Itaiacoca, na fronteira com o Parque Nacional dos Campos Gerais, em Ponta Grossa. É justamente o resultado dessas experiências que são agora apresentadas no Solar do Barão. Seria importante ressaltar aqui o aspecto processual e experimental da obra de Baptista. O registro da obra apresentado em Curitiba não é capaz de captar em sua totalidade a experiência fenomenológica da artista com intempéries e adversidades, ou a temporalidade das ações de deslocamento e plantio. O registro em vídeo faz uma mediação possível entre o espaço e o tempo da intervenção ambiental e a expografia e temporalidade da exposição. São evidentes as aproximações e distanciamentos com as neo-vanguardas do século XX, sobretudo com a obra de Beuys. O plantio das árvores não se dá em frente ao museu mas como retorno à natureza e o engajamento da artista é aquele de um geólogo na busca de marcas gravadas nas rochas. A artista encontra icnofósseis nos arenitos de Balsa Nova, registrando vestígios de seres marinhos. Como estamos falando de uma área de preservação ambiental, de fato as evidências do antropoceno são difíceis de serem identificadas no sentido mais estrito, ou seja, quando registrado na rocha, para além das pinturas rupestres feitas há aproximadamente 3.000 anos encontradas em lugares como o Abrigo Sob-Rocha Cambiju. Essa pinturas são, no sentido mais estrito do conceito de antropoceno, vestígios gravados na rocha da presença humana e retratam a relação do ser humano com a natureza e a luta pela sobrevivência através da caça e da coleta.

Por fim, em alguns do mapas produzidos por Maria Baptista para formar a Cartografia Mítica da Escarpa Devoniana, a artista registra à nanquim as cidades e localidades do estado paranaense que encontram-se nomeadas nas línguas dos povos originários e em bordado vermelho-alaranjado delimita tanto as terras reconhecidas pela Fundação Nacional do Índio, a Funai, quanto terras em situação indeterminada. Dessa forma a cartografia de Baptista não serve somente como registro dos vestígios da presença indígena no território hoje conhecido como Paraná, mas aponta para a atualidade resistência política dos povos originários. Sem essencializar a cultura e os modos de vida dos povos originários e seus descendentes, devemos ressaltar que a luta pela sobrevivência passa hoje não somente pela demarcação de terras, valorização de suas culturas e hábitos, e manutenção dos meios de subsistência, etc, mas sobretudo pelo reconhecimento dos indígenas como agentes contemporâneos de transformação de uma nova Era, o antropoceno.”